Série a voz tricolor: Não, não foi a Bahia que foi levada ao ridículo

Não, não foi a Bahia que foi levada ao ridículo

Por Ronaldo Souza


Se algum dia o futebol esteve isolado de qualquer outro setor da vida brasileira, há muitos anos isso não existe mais. Não é de agora que o futebol está ligado de maneira muito profunda, por exemplo, à política e justiça brasileiras.

Já tive oportunidade de dizer que está enraizado no imaginário popular que odoutor é um homem inteligente e culto (veja aqui). Daí, o desejo de todos os pais, principalmente aqueles que não foram contemplados pelo direito ao conhecimento, de que seus filhos entrem na universidade e que assim venham a pertencer ao mundo do nível superior. Nada mais natural.

Infelizmente, porém, o doutor não é sempre um homem inteligente e culto. Além disso, ainda mais do que inteligência e cultura, parece ser cada vez mais comum a esses doutores uma outra característica: ausência de sensibilidade

Sem dúvida, um dos segmentos mais tidos como reduto da sapiência é o habitado pelos homens do direito. Menino de interior, cresci ouvindo dizer que esses homens representavam o que há de mais próximo do Olimpo.

Às vezes fico a imaginar porque a vida é cruel. Fico a imaginar porque ela insiste em me tirar algumas coisas da minha infância, como, por exemplo, a inocência. Uma crueldade sem tamanho.

No entanto, ao mesmo tempo em que me queixo da vida, sou-lhe grato, por me proporcionar, quem sabe como compensação, muitas coisas boas, como por exemplo, conhecer a sabedoria popular. São do povo pérolas como a que diz: “de perto, somos todos iguais”.

Para a felicidade de mais de 99% da torcida do Bahia e das pessoas que, de alguma forma, fazem parte desse universo, o agora ex-presidente do Bahia, o Sr. Marcelo Guimarães Filho, foi deposto do cargo por medida de intervenção da Justiça. Não podemos falar de 100% de pessoas felizes porque para completar esse percentual faltam a diretoria dele (também afastada), alguns conselheiros (também afastados) e as pessoas ligadas a ele, pessoas que temos que buscar entender as suas razões.

Para a sua defesa, o ex-presidente do Bahia, quando ainda era presidente, portanto, a expensas do clube, contratou o Doutor Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay. Dono de um dos escritórios de advocacia mais reconhecidos e caros do Brasil, o Doutor Kakay é um advogado ilustre, responsável pela defesa de nomes importantes do Brasil e, talvez por isso, conhece bem de perto o poder. Como poucos, deve saber como as boas relações são importantes na sua profissão.

Apesar da sua notoriedade e do reconhecimento das suas qualidades profissionais, a pobreza das recentes declarações do Doutor Antônio Carlos de Almeida Castro não representa novidade, pelo menos para olhos mais atentos. Mas, sobretudo, elas não deixam a menor dúvida quanto ao acerto do ditado popular: “de perto, somos todos iguais”.

O mundo do nível superior não é superior a nenhum outro mundo.

Referindo-se à maneira como, segundo ele, de forma completamente equivocada o Tribunal de Justiça Desportiva da Bahia teria conduzido o julgamento que culminou com o afastamento do seu cliente da direção do Bahia, veja um trecho do que foi capaz de dizer o Doutor Kakay:

"Hoje o presidente do Atlético de Madrid me ligou perplexo pois queria comprar um jogador aqui e disse que não comprará. ‘Como comprarei se um juiz manda depois destituir? Imagine? Essa é a realidade’

É a credibilidade do futebol que infelizmente volta-se para a Bahia... Colocou-se ao ridículo, ridículo internacional, inclusive esse presidente do Atlético de Madrid e o presidente do [banco] BMG, que é o que mais investe no futebol, estão perplexos. Não posso desrespeitar o poder judiciário, mas um juiz da 18ª vara achou que poderia fazer uma intervenção. É um risco para o futebol internacional e leva a Bahia ao ridículo".

Muita coisa poderia ser extraída dessas declarações, mas vamos ao que mais chama a atenção.

O que pretendeu ou pretende o Doutor Kakay ao dizer que “hoje o presidente do Atlético de Madrid me ligou perplexo pois queria comprar um jogador aqui e disse que não comprará...”?
O ridículo do “comprar um jogador aqui” é simplesmente inacreditável. Além disso, teria o objetivo de mostrar intimidade com dirigentes do futebol internacional, mas, na verdade, deixando vir à tona o sentimento típico dos colonizados? Essa fala talvez fosse compatível com um aluno de direito no seu desejo típico de mostrar-se um pequeno rei.

A importância que lhe parece ter a proximidade com o poder se manifesta outra vez quando diz “... e o presidente do [banco] BMG, que é o que mais investe no futebol, estão perplexos”. Seria um reflexo do seu reconhecimento e necessidade de ter por perto pessoas influentes a lhe respaldar, expresso de maneira tão pueril?

Haveria por parte do Doutor Kakay o desejo de pressionar o TJD da Bahia por julga-lo inexpressivo e do alto das suas relações o estaria intimidando?

Haveria por parte do Doutor Kakay o desejo de utilizar do seu prestígio por saber, como poucos, como a justiça brasileira se deixa influenciar por pressões externas, como vem acontecendo nos últimos tempos em campos que não os do futebol?

Abrindo a primeira página do seu catálogo de pessoas eventualmente influentes, estaria o Doutor Kakay imaginando que o TJD da Bahia é constituído de juízes desprovidos de qualquer coisa, como competência, discernimento, senso de ridículo e que, além disso, entrariam em pânico pela simples citação daqueles nomes?

Doutor Kakay, mesmo com declarações desse nível, recuso-me a imagina-lo como um homem sem inteligência para perceber que não foi a Bahia que foi levada ao ridículo.

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