Série a voz Tricolor: A luta e a tristeza de uma torcida

A luta e a tristeza de uma torcida

Por Ronaldo Souza

A Bahia anda triste. A Bahia anda triste porque vê o seu maior patrimônio esportivo, o Bahia, abandonado. Bahia e Bahia, a e o que se misturam e se confundem; a Bahia e o Bahia são uma coisa só. Como já disse um antigo dirigente do futebol brasileiro, o baiano não gosta de futebol, o baiano adora o Bahia.

A quem recorrer? 

Juca Kfouri, jornalista paulista, disse que se fosse governador da Bahia, primeiro pedia, depois exigia que os Guimarães saíssem. 

Juca, a política tem caminhos próprios e você, como jornalista preparado e inteligente, sabe disso. O governador é um político frio, que faz tudo calculado. Fez um depoimento interessante em vídeo, ao qual assisti no lançamento do Bahia da Torcida, porém, o momento exige que se vá além do discurso. Acho que ele sofreu um desgaste perigoso para um político com a questão da CPI do futebol baiano. O desafio que ele lançou para que alguém prove qualquer participação sua no triste episódio do arquivamento da CPI é muito pouco. Os ataques que sofreu, inclusive à sua vida pessoal, além de reforçar a matéria da revista Placar que chama Marcelo Guimarães Filho de “O Rei da Baixaria”, evidenciam mais ainda a necessidade de algo mais que o desafio lançado por ele. Governador, foi pouco, muito pouco.

A Bahia anda triste porque vê que o seu povo foi traído pelos seus representantes na Assembleia Legislativa, à qual, sem o menor pudor, ainda há quem chame de a casa do povo. Uma grande tristeza pela retirada das assinaturas que garantiriam a instalação da CPI, absolutamente necessária. Pobres deputados. Não choro a absoluta ausência de qualquer resquício de sensibilidade. Não posso chorar por algo que nunca existiu. Choro tão somente pela estupidez demonstrada. Ou há algo mais?

Conhecedor de política como Juca Kfouri sempre demonstrou ser, fico me perguntando por que será que ele sequer cogitou sugerir pedir apoio ao prefeito.

Recorrer à imprensa local, e aqui falo particularmente da imprensa esportiva? A vida ensina que se deve recorrer a quem tem competência e credibilidade. Esqueça. 

O povo da Bahia, triste, agora anda sobressaltado, pelo receio de que também a intervenção judicial, tão esperada e tão necessária, não aconteça, tal qual, “inexplicavelmente”, ocorreu com a CPI. 

O fato de muitas vezes não entender a força que tem e não ter a quem recorrer não torna o povo estúpido. O povo é intuitivo, ele sabe, percebe as coisas. E preocupa como as coisas estão acontecendo. A apreensão já é perceptível e se manifesta em diversas conversas: “por que não sai a intervenção?” “por que adiaram o prazo estabelecido?”. E eis que, mais uma vez, a ansiosamente esperada intervenção foi adiada. Do dia 04/06, prazo dado inicialmente para o seu julgamento, foi para o dia 11/06. Agora, dia 18/06. 

Pode-se perguntar; o que pretendem? Mas não é assim que o povo se manifesta. Com a autenticidade dos puros e bem intencionados, ele pergunta com a resposta já embutida; “estão armando?” O que explica essa sagacidade do povo, experiências anteriores?

Coração batendo forte, incontrolável, níveis elevados de adrenalina, subidas repentinas e perigosas da pressão arterial. O time venceu. Vitórias importantes contra o Internacional e Botafogo e empate contra o Vasco, também importante nas circunstâncias em que se deu. Onde foi a festa? Em que bar? Em que boteco? Não houve.

A Torcida de Ouro, admirada, respeitada, invejada, pelas conhecidas explosões de alegria, soltou o grito de gol. Só. Um grito contido, sofrido. Precisava gritar, tinha que gritar, para não morrer por algo que ela não conhecia: segurar o peito, conter a alegria. Alegria contida em nome de um projeto maior. Projeto que agora faz parte da vida de cada torcedor do Bahia; não descansar um só minuto, um só dia, um só jogo, para eliminar de uma vez por todas aqueles que fizeram cada torcedor sofrer, chorar, morrer, ao longo desses anos. Aqueles que reverteram um processo natural, causando um mal enorme, desconhecido, a uma torcida que não mais explode de alegria. Agora, ela implode de alegria.

FORA MGF
Série a voz Tricolor: A luta e a tristeza de uma torcida Série a voz Tricolor: A luta e a tristeza de uma torcida Reviewed by Paulo Ricardo Santos on 01:22 Rating: 5

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