Série a voz Tricolor: Um time refém



Um time refém

Por Ronaldo Souza

Foi comum durante todo o período que antecedeu a inauguração da Arena Fonte Nova ouvir-se que o Bahia voltaria à sua casa, palco das suas grandes conquistas. Na afirmativa, que expressava toda a expectativa e até ansiedade do torcedor, havia um desejo implícito; o de que também voltaria o Bahia, o verdadeiro. Mas na afirmativa também havia um equívoco.

Observe que não falei em reinauguração da Fonte Nova. Se isso fosse possível, a reinauguração da Fonte Nova, talvez todos os santos e orixás, que sempre estiveram com o Bahia, voltassem e pudessem nos ajudar a reviver aqueles momentos de glória.

A Fonte Nova sempre foi o grande palco do Bahia, o palco de conquistas inesquecíveis, algumas inexplicáveis, momentos em que provavelmente os santos e orixás entraram em campo.

Não será assim.

A Arena Fonte Nova não é a Fonte Nova. A Arena Fonte Nova nada tem a ver com a Fonte Nova. Há certas coisas que não se explicam, como há certas coisas que jamais entenderemos. Da mesma forma, o Bahia não é mais o Bahia. Tornou-se um time refém.

Refém de um passado recente, quando, após ganhar pela segunda vez um campeonato brasileiro, honra e glória dadas a poucos, mostrou ser o mesmo de quando o fez pela primeira vez, há 54 anos.

Foi compreensível que àquela época o Bahia ganhasse um título nacional e continuasse provinciano. Eram tempos de um futebol que ainda conservava muito do seu amadorismo. Ainda mais se tratando de um time do nordeste, onde vicejam dirigentes pobres, muito pobres de espírito.

Foi, porém, inaceitável e imperdoável que o dirigente que estava à frente do clube na conquista do seu segundo título nacional, momento em que o futebol já estava totalmente profissionalizado, continuasse com a mentalidade tacanha e provinciana que o caracterizou.

Times como Atlético Mineiro, Cruzeiro, Coritiba, para citar somente esses, souberam tirar proveito dos momentos em que também conquistaram os seus títulos nacionais e se tornaram o que são hoje.

Quando o Bahia dava sinais de decadência, aquele dirigente recorria ao velho chavão; “ah, mas o nosso rival...” E dizia as bobagens que a sua pobre mente lhe oferecia como argumento. Era um fiel discípulo, na verdade o melhor, daquele dirigente do título de 1959. Um novo título nacional, mas o Bahia não tinha evoluído.

Apesar de tudo, ainda que continuasse pobre na sua estrutura, que na verdade nunca existiu, alguns dos times que entraram em campo nesse período eram bons. Alguns até se tornaram inesquecíveis e estão ainda na memória dos torcedores.

Conduzido a um cargo vitalício, proporcionado pelo seu senhor, que não lhe permitia ficar à frente do clube, o “eterno presidente” recorreu a uma estratégia cruel e perversa; pôs no comando do clube homens absolutamente incompetentes, mas que podia controlar. Um plano maquiavélico que mantinha o clube sob seu domínio, mesmo não sendo mais oficialmente o seu presidente, até que ele pudesse voltar.

O Bahia entrou numa longa noite de horror, um período de trevas. Penou entre a segunda e terceira divisões do futebol brasileiro durante anos.

A volta à primeira divisão animou a todos. Um presidente jovem estava à frente do clube naquele momento. Um presidente jovem que logo mostrou que não era um jovem presidente. Um discípulo do discípulo estava na presidência. Estávamos de volta ao passado, sem jamais termos saído dele. Uma análise fria nos chama à realidade: como esperar algo de uma diretoria que tem a sua origem naquelas que trouxeram a longa noite que se abateu sobre o clube e se lá ainda estão remanescentes delas?

O Bahia é um time refém do passado. Refém da pobreza de espírito e da pequenez dos homens. Um clube refém do mesmo pensar pequeno de 54 anos atrás. O seu presidente, tal qual os que lhe antecederam, já mostrou inúmeras vezes o seu completo despreparo para dirigir um clube de futebol da grandeza e tradição do Esporte Clube Bahia. Grandeza pela força da sua torcida e tradição pelos títulos outrora conquistados.

Não se trata de coincidência, é pura incompetência. Ou seria algo mais? Viver da tradição dos títulos conquistados é um castigo que a torcida não merece.

A Arena Fonte Nova não é a Fonte Nova. A Arena Fonte Nova nada tem a ver com a Fonte Nova. Mas isso seria facilmente contornável. O grande e único problema é que o Bahia não é mais o Bahia. O Bahia nada mais tem a ver com o Bahia.

Os santos e orixás da Bahia não mais estarão sentados ao nosso lado nas cadeiras da Arena Fonte Nova. Sentem saudades do Bahia e da Fonte Nova.

Série a voz Tricolor: Um time refém Série a voz Tricolor: Um time refém Reviewed by Paulo Ricardo Santos on 20:58 Rating: 5